segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Meu amigo Gugu

Procurar coisas na internet é uma atividade que já faz parte da vida de milhões de pessoas pelo mundo e, claro, da minha também. O significado das palavras, as notícias do mundo todo, as respostas para todas as perguntas. Tudo parece estar lá. Disponível. O tempo todo. Pra quem quiser, na hora que quiser, dar um simples clique no ícone “Pesquisa Google”. Mas, infelizmente, ainda não é tudo tão fácil assim...

O primeiro problema do Google é que, no meio de tanta coisa, tudo se torna uma grande confusão. Você procura isto, encontra aquilo. Você procura assim, encontra assado. Não que isso seja totalmente ruim. Eu, por exemplo, já achei coisas interessantíssimas sem procurá-las. Tudo bem, não vamos colocar a culpa no Google, quem sabe não é a Lei de Murphy? “Você sempre acha algo no último lugar que você procura” (que provavelmente não é o Google) ou, “você só vai encontrar quando não estiver procurando” (em qualquer site que não seja buscador).

Muita gente acredita mas, infelizmente, o Google não sabe tudo. Este é o segundo problema dele: o de ser apenas, como o próprio Google diz, um “mecanismo de busca criado em 1998 por Sergey Brin e Larry Page”. Sendo assim, ele não distingui o que é certo do que é errado e não dá às pessoas as informações realmente verdadeiras que elas procuram.

Mas apesar de tudo, o problema maior não é com o Google, é com o que as pessoas fazem dele: um Deus da era contemporânea. Onipresente, onisciente, onipotente. Por incrível que pareça, essas são as características do Google para alguns. Pensam que ele sabe tudo, pode tudo e está em todo lugar. Estar em todo lugar até pode ser. Se não, em poucos anos estará. Mas a onisciência, principalmente, é balela. Já está na hora de ser desmistificada.

Eu gosto do Google. De verdade. Ouso dizer que sou até do grupo “não sei o que seria a minha vida sem o google”. Mas a minha relação com ele não é a de endeusamento. Penso que ele, como um ser humano, pode errar, não está sempre certo, é confuso e, ao mesmo tempo, muito útil para mim. O Google é bom para os que sabem usá-lo: aqueles desconfiados. Acho que se existisse uma Google-Bíblia em alguma parte estaria escrito: “Bem aventurados os que desconfiam do Google, porque será deles o reino da sabedoria”.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Hoje é dia de rotina

Acordar, escovar os dentes, vestir alguma coisa, ir para o trabalho. Segundas, terças, quartas, quintas e sextas. Quase todo dia, para quase todo mundo, é dia de rotina. Assistir a Ana Maria Braga de manhã, fazer almoço meio-dia e passar a roupa à tarde. Tomar mamadeira, brincar de carrinho, tomar banho para ir dormir. Tudo isso é rotina. Velhos, jovens, trabalhadores ou não. Todo mundo entra na roda.

O dicionário chama de prática constante ou caminho já trilhado. Mas rotina é, na realidade, a melhor opção para manter pessoas desacordadas. Funciona tanto quanto a hipnose. A rotina é um tipo de hipnose. Ela serve para deixar o tempo livre, solto, passando despercebido. Já que, hipnoticamente, muitos continuam a dormir.

O problema maior da rotina é se acostumar a ela. Já diria Marina Colosanti: se acostumar não devia. Não devia porque prende, aliena, enfraquece. E a rotina é quase sinônimo de costume. Mas todo mundo se acostuma, todo mundo tem rotina. Sim, todo mundo de alguma forma. Mas isso não quer dizer que tudo está perdido.

Não é totalmente ruim fazer parte de uma rotina. Não é sempre que a rotina tem o poder de adormecer pessoas. A rotina pode ter algo de bom sim. Pode ter aprendizado. Pode ter a tranqüilidade que tantos desejam. Pode até ter beleza. Pode sim e não é só na música Cotidiano do Chico Buarque. De um modo geral, não há problemas em seguir rotinas, o problema é fechar os olhos.

Manter os olhos fechados já é uma prática social. Depois de anos de evolução e tecnologia, a sociedade decidiu parar de enxergar. Não ver o que não se quer ver. Não ver o que incomoda, perturba. Ou, simplesmente, não ver o que é simples. Essas práticas, infelizmente, já são comuns.

Acordar, fazer almoço de manhã, trabalhar à tarde, assistir um filme a noite e não tomar banho antes de dormir. Não importa a ordem ou a atividade. Não importa se é velho, rico ou andarilho. Se morre pra não perder a Ana Maria Braga ou se nem tem tempo de ligar a televisão. Importante é estar de olhos abertos. Não se acostumar. Hipnose? Só com hora marcada.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A adormecida academia joinvilense

Se Machado de Assis fosse catarinense, estaria se revirando no túmulo. Isso porque a maior cidade do estado, curiosamente, não possui sua própria academia de letras. A verdade é que já possuiu e, se não bastasse isso, foi a primeira a ser fundada em Santa Catarina.

A Academia Joinvilense de Letras foi fundada em 15 de novembro de 1969 com o apoio do então prefeito Nilson Bender. Catorze escritores assinaram os Estatutos como sócio-fundadores. Entre eles estava o advogado Carlos Adauto Vieira, o deputado federal Carlos Gomes de Oliveira e o historiador Adolfo Bernardo Schneider que foi eleito presidente da academia.

“O lançamento daquela aventura foi com pompas, nos salões da Sociedade Harmonia Lyra, ratificado pela presença, em peso, da Academia Catarinense de Letras e representantes da Academia Brasileira de Letras” – lembra um dos sócio-fundadores Alcides Buss.

Hoje, prestes a completar 40 anos, a Academia Joinvilense de Letras permanece adormecida. Algumas das provas de sua existência sobrevivem esquecidas no arquivo histórico de Joinville. Os documentos esperam silenciosamente por uma nova sede. Mas, até agora nada.

No ano passado, a câmara de vereadores de Joinville apresentou, através de uma vereadora, uma moção à favor da volta da academia. O documento pedia ao prefeito a nomeação de “uma nova Comissão de Organização da Academia Joinvilense de Letras”. Mas, infelizmente, a solicitação não foi atendida.

Com a chegada de um novo governo, a moção foi representada este ano. E, mais uma vez, nenhuma resposta. Os novos membros que deveriam ser convidados, à pedido da moção, para “compor e enriquecer essa academia”, ainda não foram convocados. E a academia continua inativa.

domingo, 23 de agosto de 2009

A árvore genealógica dos Buendía



Quem nunca se perdeu em meio à tantos personagens é porque nunca leu Cem Anos de Solidão. Entre quatrocentas páginas escondem-se mais de cinqüenta pessoas. Destas, 44 são da família Buendía. Das 44, cinco se chamam Aureliano. Isso sem contar com os dezessete Aurelianos filhos do capitão Aureliano Buendía. Já deu pra confundir? Pois tem mais!

José Arcádio, Arcádio, José Arcádio Segundo, Amaranta, Úrsula, Amaranta Úrsula, Remédios, Renata Remédios...e por aí vai. A saga de cem anos da família Buendía em Macondo é vasta em histórias e personagens. Faz os leitores se perderem, literalmente, nas páginas do livro.

A lembrança do capitão Aureliano Buendía, diante do pelotão de fuzilamento, de quando viu o gelo pela primeira vez é o ponto de partida. A partir daí toda a história é contada desde o momento que o patriarca José Arcádio Buendía chegou com sua mulher Úrsula e seus dois filhos em um vilarejo que chamaria de Macondo.

A pequena Macondo é o cenário de tudo o que acontece com os Buendía. Da descoberta da alquimia, da guerra feita pelo capitão Aureliano, da mania de Rebeca em comer terra, da beleza de Remédios a bela e de tudo o que poderia acontecer em cem anos naquele pequeno povoado.

Gabriel Garcia Márquez recebeu o titulo de ultimo grande contador de historias do século XX por causa de seu mais confuso e genial livro. Cem anos de Solidão: a história da maior “estirpe de solitários para a qual não será dada uma segunda oportunidade sobre a terra”.

Cem anos de Solidão: li e me perdi – duas vezes.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O dia em que Tony foi ao ar

Estava marcado para as quatro da tarde, mas ele apareceu mais cedo. Arrumado com camisa de botão e manga curta, calça jeans e sapato, Tony esperava encostado na parece ao lado de seu violão. Na cabeça, além do cabelo cuidadosamente arrumado, havia, sem dúvida, muitos sonhos. O sonho de cantar e encantar, o sonho de mostrar sua arte e principalmente o sonho de viver dela.

Tudo tinha acontecido muito rápido. Até a noite do dia anterior, tinha um trabalho de garçom. Hoje já não tinha mais. Até a noite do dia anterior, talvez Tony estivesse desesperançado. Hoje ele já se mostrava cheio de esperanças. Até a noite do dia anterior, Tony levava sua vida de músico como projeto paralelo. Hoje ele já estava decidido: ia viver da música.

Tony Araújo nasceu em São Paulo mas mora desde 1995 em Joinville e se considera praticamente daqui. “Foi em Joinville que nasceu a minha filha e a minha paixão pela música” – lembra ele. Tony não teve influência na família ou na infância, a música simplesmente aconteceu, surgiu de repente.

No começo, Tony foi “com muita sede ao pote”. Estudou, aprendeu e começou procurar espaço. Tocou músicas de seus ídolos Lenine e Zé Ramalho em alguns lugares e encantou muita gente. Sempre com a sua fiel música brasileira porque, como ele mesmo diz, “eu sou brasileiro.” Por fim, Tony acabou sendo garçom em um dos bares que já tinha tocado. E nesse mesmo bar conheceu, naquela noite, quem o faria estar na TV, no dia seguinte.

Hoje ele diz, humildemente, que não tem pretensão de ficar famoso. “Quero apenas receber pelo que eu mereço e fazer o meu trabalho” – confessa Tony. Isso sempre tocando ao vivo já que, como ele mesmo explica, “vender CD não dá mais dinheiro”.

Um pouco nervoso, Tony entrou no estúdio para gravar sua primeira entrevista para a televisão como músico oficialmente. Sentou na cadeira do entrevistado, respondeu a algumas perguntas, pegou seu violão e começou a tocar. Tudo de um jeito muito humilde e sincero.

O bloco era de apenas 20 minutos, mas deu tempo pra tudo. Tony não falou muito, mas fez o que melhor sabe fazer: cantar e tocar. Tudo sempre com um sorriso no rosto. Deu até para o apresentador brincar: “estamos aqui com o homem que canta sorrindo”.

E foi assim, de sorriso em sorriso, que se acabaram os 20 minutos de Tony Araújo. Aqueles poucos minutos que, sem dúvida, entrariam para a história da vida dele teve um fim. Os seus “minutos de fama”. O pontapé inicial de sua brilhante carreira. O dia em que Tony foi ao ar.

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(Para contratar Tony de Araújo e/ou sua banda Dr. Pimenta: (47) 8412 2623)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Profissão de Risco: Jornalista

Enchentes, guerras e ameaças são algumas das situações que um jornalista, ao ingressar na carreira, decide enfrentar dali para a frente. Os riscos que os profissionais dessa área correm vão de xingamentos a brutais tipos de violência que, às vezes, levam até à morte. A lista de danos sofridos por jornalistas é extensa no mundo todo e suas causas são as mais diversas.

Os desafios fazem parte do jornalismo desde a sua consolidação e reconhecimento como profissão. Hoje, a busca pela informação é ainda mais desafiadora por causa das novas tecnologias que aceleram o processo de comunicação. Tal busca desenfreada e constante pela notícia é o combustível que leva jornalistas a cobrir fatos perigosos como guerras e fenômenos naturais.

Em alguns casos esses riscos superam a missão de informar, como no episódio envolvendo o jornalista Ricardo Kotscho e contado por ele no livro A Prática da Reportagem: "Estava em Itatiaia, cobrindo um incêndio na reserva florestal, quando nos mandaram de lá mesmo direto pra Macaé: explosão na plataforma central de Anchova 1". Kotscho se recusou a ir à plataforma que havia explodido, em 1984. "O jornal não precisa de heróis, mas de reportagens. E cada um tem que conhecer seus próprios limites" – declarou o jornalista.

Reconhecendo-os ou não, sempre há quem passe dos limites. Um dos casos mais conhecidos é o do jornalista José Hamilton Ribeiro que, em 1968, foi cobrir a Guerra do Vietnã para a Revista Realidade. A sentença foi trágica: o repórter perdeu uma perna ao pisar numa mina terrestre. Apesar da perda, José Hamilton ainda se diz a favor da cobertura jornalística nestes casos: “Uma guerra é ruim, mas uma guerra sem jornalista é pior ainda”.

Os motivos pelos quais esses profissionais escolhem encarar os riscos são muitos, segundo José Hamilton Ribeiro. “Um pouco ambição profissional. E uma pitada de falta de juízo. Mas muito mesmo de um componente psicológico típico da profissão de jornalista, que é ser um justiceiro, um missionário, um visionário, no sentido em que ele sente que precisa estar onde estão acontecendo as coisas. Primeiro, para ser um testemunha da História. Segundo, para denunciar o que houver ali de maldade, de injustiça” – sentencia.

Hoje, com a saturação do mercado, escolhas como as de Kostscho e Zé Hamilton ficam cada vez mais difíceis: ou o profissional aceita correr os riscos ou pode ser substituído por quem o faça. Dessa maneira, enfrentar todo tipo de dificuldade no processo de apuração da notícia se tornou fator obrigatório para quem trabalha na imprensa.

Outra forma de levar um jornalista aos riscos é a sua desconfiança. Na tentativa de mostrar o que ele supõe que se queira esconder, o repórter pode sofrer diversos tipos de ameaças e atentados. Isso ocorre principalmente no Jornalismo Investigativo, do qual se tem um exemplo muito difundido: o escândalo Watergate, na década de 1970, quando dois repórteres descobriram o envolvimento do presidente dos EUA Richard Nixon com operações ilegais. O caso levou Nixon a renunciar ao cargo.

A reportagem investigativa, usada principalmente na política, é uma das áreas em que o profissional da mídia mais se expõe à riscos. O jornalista e comentarista de política radicado em Joinville, Osny Martins, diz que, recentemente, na cobertura das eleições municipais, chegou a receber telefonemas com ameaças de morte. Além disso, Osny conta que também teve vidros da janela de sua casa quebrados e estragos em seu carro.

Porém os casos não se limitam à editorias de política e polícia que pensa-se ser as mais perigosas. O jornalista de Joinville Cacá Martan trabalha na área esportiva e confessa ter passado por muitos riscos. Segundo ele, em transmissões esportivas são comuns agressões verbais por parte dos torcedores. Cacá diz que já foi também agredido fisicamente com guarda-chuvas além de levar banho de cerveja e até urina.

Atentados contra a liberdade de imprensa não são herança exclusiva do período de ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964. Mas o regime ditatorial que durou até 1985 foi sem dúvida a fase mais conturbada na história do jornalismo brasileiro. A censura proibia os profissionais da comunicação de exercer seu trabalho. Muitos jornalistas, na tentativa de resistir ao regime, foram torturados e até assassinados.

Alguns dados refletem as conseqüências trágicas dos riscos enfrentados por estes profissionais. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj foram registrados 171 casos de mortes na Imprensa durante o ano de 2007. Neste ano, segundo o Observatório da Imprensa, até o mês de outubro já foram contabilizados cerca de 70 óbitos no mundo. O fato curioso é que a maioria destes registros ocorre em épocas de paz e em países que não passam por guerras ou conflitos.
- Reportagem publicada no Cobaia (jornal da Univali)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Eu cego, tu cegas, ele cega...

Não há pontos de interrogação. Não há diálogo que se preceda de um travessão. Não há nomes para os personagens. A moça é chamada de “rapariga”; o médico de médico e assim é com todos os outros. Para o alto-falante, chama-se “altifalante”. Para os dormitórios, dá-se o nome de “camarata”. Porém, mais curioso ainda é o mote: todas as pessoas do mundo cegando de repente.

No livro Ensaio sobre a cegueira de José Saramago tudo é estranho. A começar pela língua que tem o mesmo nome que a nossa - mas é tão diferente quanto às de título distinto - a Língua Portuguesa. O autor, nascido em Portugal, não permitiu a adaptação de seu livro para o “português tupiniquim”. Assim, aos brasileiros, a estranheza já surge nas primeiras frases.

Não bastasse a ortografia e a gramática, o livro nos presenteia com mais uma de suas particularidades logo no começo: o enredo. Nele é contado que um homem, ao parar no sinal vermelho, fica cego de modo repentino. Sem causas nem explicações. Só há uma distinção: a cegueira é branca. O caso inesperado é seguido de outros e mais outros casos. Os que enxergam terminam por cegar com algum contato com um cego. Nasce, então, uma epidemia contagiosa de cegueira. As autoridades tomam medidas de prevenção ao surto, mas a ação é ineficaz: todos cegam.

Criativo, estranho e genial. A história parece loucura do escritor. Mas é só um jeito muito inteligente de propor algumas reflexões sobre hábitos comuns à humanidade. Como, por exemplo, o "hábito" de não ver.